Trabalho escravo, um passado presente

Cícero R C Omena
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O Censo 2010 revelou que existem 97 milhões de pessoas que se consideram negras ou pardas e 91 milhões que se consideram brancas. Agora, olhe para escolas particulares, lojas de alto padrão, olhe para os seus médicos e para os bairros de classe alta e procure essa maioria apontada pela pesquisa. Essa desproporção pode ser melhor percebida se fizermos este teste procurando apenas pelas pessoas de cor negra. O trabalho escravo abolido tardiamente pela Lei Áurea deixou para nós marcas profundas que até hoje se refletem nas desigualdades.
O trabalho escravo ainda existe atualmente. E continua deixando suas marcas em famílias que perdem seus parentes, e trabalhadores que perdem seus sonhos. Este tipo de trabalho é disposto em condições sub humanas análogas à escravidão. As vítimas não são somente os de etnia negra, parda ou indígena, como fora antigamente. São pessoas simples e sem instrução, que geralmente vivem em cidades afastadas. Seus raptores os iludem com propostas de trabalho que geralmente incluem salários atrativos, estadia e alimentação por conta do empregador.
Os locais de trabalho são sempre distantes do lugar de origem do trabalhador, em fazendas isoladas onde não há grandes chances de fuga. Ou como em diversos casos onde pessoas são levadas das regiões Norte e Nordeste para o estado de São Paulo com o objetivo de trabalhar na construção civil. Em relatos de vítimas levadas para São Paulo, após exaustivas horas de trabalho, os trabalhadores se alocam em casas de bairros residenciais, escoltados e vigiados discretamente, sem que a vizinhança suspeite.
A indústria têxtil também tem sido cenário de casos de trabalho análogo à escravidão. Estrangeiros vindos de diversos países da América Latina, principalmente da Bolívia, são aliciados para trabalhar na costura de roupas que já chegaram a ser comercializadas até em lojas famosas, nacionais e internacionais. Para ajudar no combate ao trabalho escravo na indústria têxtil, o site Repórter Brasil lançou o app Moda Livre, disponível para Android e iOs, que avalia as ações que as principais marcas e varejistas estão tomando para evitar a produção de suas peças por meio de mão de obra escrava.
Estima-se que existam mais de 29,8 milhões de pessoas ao redor do mundo em situação análoga à escravidão. No Brasil o Ministério do Trabalho já resgatou mais de 44 mil trabalhadores nesta situação, e estima-se que existam mais 25 mil esperando resgate. Infelizmente, para nós consumidores, não existem meios de saber quais empresas utilizam desta mão de obra ilegal em sua produção. Este é um perigoso trabalho que deve ser exercido pelos governos em parceria com a ONU. Para nós, resta apenas saber selecionar as empresas que adquirimos os produtos levando em conta sua qualidade, seus valores e sua preocupação para com seus colaboradores.

Reinaldo Araujo